• A riqueza do tempo perdido

      Garcia,Tânia Maria F. Braga (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999-07-01)
      Este artigo apresenta análises produzidas a partir de investigação etnográfica realizada em uma escola pública de ensino fundamental, localizada na periferia de Curitiba (PR). O material empírico foi obtido a partir de observações realizadas durante um período de treze meses em uma sala de aula de terceira série, de entrevistas realizadas com a professora e com os alunos, e pelo exame de documentos. O foco recai sobre as práticas de uma professora bem sucedida e sobre a organização do tempo na sala de aula. As análises foram desenvolvidas a partir de três categorias: distribuição do tempo, momento oportuno e ritmo. Os resultados do estudo permitiram ampliar a compreensão sobre as relações entre o tempo escolar, o ensino e a avaliação. Indicam a necessidade de se pensar a temporalidade da sala de aula a partir de duas dimensões - chronos e kairós - que, no caso em estudo, se coordenam e se ajustam na situação de ensino, abrindo espaço para uma estratégia de trabalho que privilegia o atendimento individual aos alunos; e mostram, também, formas de uso do tempo que se apresentam como significativos espaços de produção de relações no cotidiano escolar.
    • O livro didático na educação infantil: reflexão versus repetição na resolução de problemas matemáticos

      Brandão,Ana Carolina; Selva,Ana Coelho V. (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999-07-01)
      O artigo analisa livros didáticos de matemática utilizados em salas de educação infantil, especificamente o tópico de resolução de problemas de estrutura aditiva. Foram examinadas doze coleções de livros, a partir de quatro eixos: a forma de introdução aos conceitos de adição e subtração; os tipos de problemas propostos; a utilização das ilustrações nos enunciados dos problemas; e o tipo de registro solicitado às crianças. Constatou-se que os livros didáticos analisados apresentam uma pequena variedade em relação à estrutura dos problemas. Assim, problemas envolvendo adição se limitam às estruturas de combinação e transformação e a maioria dos problemas de subtração restringe-se à estrutura de transformação. Em relação às ilustrações, observou-se que este recurso é bastante utilizado para fornecer os dados no enunciado do problema. Notaram-se, ainda, vários casos em que a própria ilustração fornece a resposta. Quanto ao tipo de registro, evidenciou-se que este se limita, geralmente, à solicitação da escrita dos dados e da resposta do problema em espaços previamente determinados. Freqüentemente é indicado o sinal da operação esperada para a solução do problema. Conclui-se que os livros didáticos de pré-escola analisados pretendem trabalhar com resolução de problemas, no entanto, as situações propostas são repetitivas e não estimulam o desenvolvimento e o confronto de estratégias diversas por parte das crianças.
    • História de vida e projeto: a história de vida como projeto e as "histórias de vida" a serviço de projetos

      Josso,Marie-Christine (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999-07-01)
      Vinte anos de práticas de reflexão, sobre e nos procedimentos de "histórias de vida em formação", permitem fazer uma síntese sobre sua contribuição e compreender a formação do ponto de vista dos sujeitos aprendizes, bem como as aspirações de conhecimento em relação aos contextos de utilização de perspectivas biográficas. O artigo oferece, desse modo, um amplo panorama europeu e internacional de autores que publicaram suas pesquisas nesse âmbito e distingue as histórias de vida como projeto de conhecimento das perspectivas biográficas temáticas a serviço de projetos específicos. Nessa diversidade, porém, depreende-se uma unidade: a preocupação de construir um saber a partir de um trabalho intersubjetivo dos autores dos relatos com os pesquisadores e, por conseguinte, a preocupação de dar ao trabalho sobre e com a subjetividade um estatuto hermenêutico produzindo, no mesmo movimento, um conhecimento do processo de construção de si (self) e dos conhecimentos generalizáveis pelo seu valor de uso.
    • As humanidades no ensino

      Chervel,André; Compère,Marie-Madeleine (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999-07-01)
    • Cadências escolares, ritmos docentes

      Teixeira,Inês Assunção de Castro (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999-07-01)
      O artigo analisa alguns dos eixos que estruturam os ritmos cotidianos dos professores, próprios às temporalidades da vida social na escola. Parte do pressuposto de que o tempo é uma "categoria do pensamento lógico", originada no ritmo da vida social (Dukheim), e que essa rítmica é uma "modalidade concreta do tempo social" (Lefebvre e Régulier). O estudo é parte de uma pesquisa que busca tematizar a experiência do tempo de sujeitos que se encontram na condição de professores - docentes de quinta à oitava séries do ensino fundamental e do ensino médio -, levando em conta seus vínculos com a construção de identidades docentes. O texto se desenvolve em torno de três eixos: as cadências das interações entre educandos e educadores, os ritmos dos calendários e os compassos dos horários escolares. Conclui-se que os ritmos docentes, embora circunscritos à rítmica da vida moderna, têm particularidades associadas às cadências da escola, aos processos pedagógicos e àqueles relacionados à formação humana. Trata-se, pois, de analisar a polirritmia dos tempos da escola em sua complexidade e peculiaridades, de forma a se compreenderem as modulações e significações da experiência do tempo na condição de professor, vivência constitutiva das identidades docentes.
    • Tempos de infância, tempos de escola: a ordenação do tempo escolar no ensino público paulista (1892-1933)

      Souza,Rosa Fátima de (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999-07-01)
      O texto analisa a ordenação do tempo nas escolas primárias paulistas no final do século XIX e início do século XX, período em que se institui e se consolida a arquitetura temporal escolar. Compreende, pois, as primeiras prescrições detalhadas sobre o tempo constantes na reforma republicana da instrução pública de 1892, as regulamentações instituídas no decorrer da Primeira República, até o momento de criação do Código de Educação de São Paulo em 1933, quando se inaugura uma nova fase da instrução pública no estado. O texto busca mostrar como o tempo constitui uma ordem que se experimenta e se aprende na escola. Para a realização deste estudo foram utilizadas fontes documentais, especialmente a legislação e textos oficiais da administração do ensino. As análises incidem sobre dois aspectos: a formulação política do tempo escolar e a organização pedagógica e disciplinar do tempo na escola. Em relação ao primeiro aspecto, mostra como a ordenação do tempo pautou-se pela aspiração de uniformização e controle. Nesse sentido, as autoridades do ensino público procuraram regulamentar a obrigatoriedade do ensino, a freqüência, a duração do curso primário e a jornada escolar. Em relação à organização pedagógica e disciplinar do tempo, põe em destaque a ordenação minuciosa do emprego do tempo compreendendo a racionalização curricular - a seleção e distribuição do conhecimento por séries, aulas, lições, e a definição dos horários.
    • Apresentação

      Chervel,André; Compère,Marie-Madeleine (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999-07-01)
    • Nuevas perspectivas sobre el razonamiento moral

      Sastre Vilarrasa Genoveva; Moreno Marimon Montserrat (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000)
      En los trabajos de Carol Gilligan aparece la ética del cuidad y la responsabilidad que tiene en cuenta los aspectos diferenciales y las necesidades particulares de las personas. Esta ética se contrapone a la de la justicia descrita por Kholberg, cuyas características son el principio de igualdad y la no consideración de las características específicas de cada ser humano. Ambas éticas parecen, sin embargo, complementarias. El trabajo que se presenta incluye ambos enfoques éticos, en una situación experimental en la cual se pide a sujetos de diferentes edades (desde los 6 años hasta los 21) que tomen decisiones que implican optar por uno u otro de estos dos enfoques o integrar ambos. El tratamiento de los datos se realiza analizando los modelos organizadores que aparecen, lo cual permite diferenciar los elementos de la situación que resultan más destacables para los sujetos de cada edad, el significado que atribuyen a cada uno de ellos, la forma como los organizan para conferir un sentido al conjunto y las implicaciones que hacen derivar de todo ello. El estudio de la evolución de los modelos organizadores en las diferentes edades muestra que la evolución de las concepciones éticas está lejos de ser lineal. Ello conduce a plantearnos el análisis de los procesos de construcción de la ética, mediante modelos teóricos que contemplen la complejidad y al abandono de modelos lineales incapaces de describir los fenómenos observados.
    • Escola, democracia e a construção de personalidades morais

      Araújo Ulisses F. (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000)
      Este artigo propõe-se a discutir as relações entre moralidade, democracia e educação na perspectiva do pensamento complexo, apontando caminhos e propostas para sua efetiva implementação no cotidiano educacional, com a convicção de que esse é um imperativo das novas demandas sociais para a escola contemporânea. Entendendo que um dos objetivos da educação é o da formação ética, o autor propõe ações intencionais para que a escola propicie aos sujeitos da educação os instrumentos necessários à construção de suas competências cognitivas, afetivas, culturais e orgânicas, dando-lhes condições de agir moralmente no mundo. Nesse sentido, são identificados e discutidos sete aspectos da realidade escolar que impedem ou contribuem para a democratização da escola e que devem ser compreendidos a partir do paradigma da complexidade: os conteúdos escolares, a metodologia das aulas, a natureza das relações interpessoais, os valores, a auto-estima e o auto-conhecimento dos membros da comunidade escolar, assim como os processos de gestão escolar.
    • Psicologia moral e educação: para além de crianças "boazinhas"

      Nucci Larry (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000)
      As rápidas mudanças sociais têm pleiteado, nos EUA, o retorno do ensino de valores tradicionais por meio de programas de educação do caráter. Esses esforços visam fomentar virtudes que levam as crianças a se tornarem pessoas "boazinhas", educadas, respeitosas e que tratem os outros com justiça. Ainda que se concorde com esse propósito, dúvidas podem ser levantadas a respeito da suficiência dessa abordagem da socialização no que diz respeito ao desenvolvimento humano numa perspectiva moral crítica. Tal perspectiva é necessária para que uma pessoa possa avaliar, a partir de um ponto de vista moral, seus valores socialmente adquiridos. Na ausência de tal capacidade, não se pode evitar a reincidência da imoralidade entranhada no conjunto existente de normas sociais. Assim sendo, o autor discute pesquisas e teorias atuais sobre o desenvolvimento social infantil que oferecem uma base a partir da qual se possam construir programas educacionais para além da preparação das crianças com vistas ao enquadramento no status quo moral. Este trabalho indica que, em todas as fases do desenvolvimento, as concepções de moralidade são distintas daquelas oriundas de outros valores sociais e convenções não morais. Ao final, são oferecidas sugestões de como construir programas educacionais que levem em conta as complexas interações entre valores morais e não morais e que ultrapassem a mera doutrinação das crianças conforme os valores da sociedade, estimulando os alunos a empregarem seu conhecimento moral na avaliação de situações sociais e guiar seu comportamento a partir de um ponto de vista moral crítico.
    • Cognição, afetividade e moralidade

      Araújo Valéria Amorim Arantes de (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000)
      O presente trabalho fundamenta-se em algumas tendências atuais no campo da Psicologia Moral, que buscam compreender a natureza dos juízos e das ações morais, incorporando o papel da afetividade em tais processos. Para atender esse objetivo, são apresentados alguns trabalhos recentes bem como os dados relativos a uma investigação, na qual se buscou identificar e analisar as possíveis relações entre os estados emocionais, os raciocínios morais e a organização do pensamento dos sujeitos quando solicitados a resolverem conflitos de natureza moral. Dentre seus resultados, foi encontrada uma forte relação entre o estado emocional dos sujeitos e a forma como organizavam seu raciocínio. A partir das novas contribuições teóricas que vêm surgindo recentemente neste campo de estudos, discute-se a necessidade de se pesquisar como a educação moral pode ser pautada em parâmetros distintos daqueles relacionados ao desenvolvimento e à construção da capacidade racional da justiça. Sem negar a importância de tal construção, defende-se o princípio de que a educação deve preocupar-se também com a construção e organização da dimensão afetiva do psiquismo, buscando a formação de personalidades morais que integrem em seus juízos e suas ações, ao mesmo tempo, os interesses pessoais e coletivos.
    • A "infância desamparada" no asilo agrícola de Santa Isabel: instrução rural e infantil (1880 - 1886)

      Schueler Alessandra Frota Martinez de (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000)
      O presente trabalho trata da criação da Associação Protetora da Infância Desamparada, na Província do Rio de Janeiro, nos anos 1880, e as suas propostas de promover a instrução primária e a educação agrícola destinadas às chamadas crianças pobres do Império. Para tanto, levou-se em consideração os debates sobre a difusão da instrução elementar, o trabalho e a reatualização das políticas de controle social. Estas políticas estiveram presentes entre as preocupações e os objetivos dos sócios fundadores e políticos do Império e sinalizaram para um projeto de educação asilar, no qual a economia agrícola surgia como base da construção nacional. Para compreender essas questões, o artigo detém-se na análise do Asylo Agrícola de Santa Isabel, criado pela Associação e inaugurado em 1886. Busca-se caracterizar: sua arquitetura, os espaços construídos e áreas externas; as crianças para lá enviadas, sua naturalidade, sexo e condição social; e o ensino ministrado, os saberes difundidos, disciplina de caráter religioso, recursos a prêmios como emulação e trabalho no campo. Conclui-se com a afirmação de que a tentativa de estabelecer uma política de educação moral e religiosa, aliada à instrução elementar e ao ensino voltado ao trabalho rural, com o intuito de conservação de uma mão-de-obra dependente nas fazendas agrícolas, consistiu nos fundamentos e objetivos principais da Associação Protetora da Infância Desamparada.
    • Para um estudo psicológico das virtudes morais

      La Taille Yves de (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000)
      O propósito deste artigo é defender a importância de estudos psicológicos das virtudes morais (como generosidade, coragem, humildade, fidelidade etc.). Tal defesa é realizada de várias formas. Do ponto de vista filosófico, o tema das virtudes não somente é clássico (Ver Aristóteles, por exemplo) como tem sido rediscutido por autores contemporâneos descontentes com as limitações da ética moderna, em geral baseada no conceito de direito. Do ponto de vista psicológico, o autor defende a idéia segundo a qual as virtudes morais não somente participam da gênese da moralidade, como representam traços de caráter essenciais à coesão da personalidade moral. Tal perspectiva está, de certa forma, anunciada na obra de Piaget sobre o juízo moral, como em autores outros como Tugendhat. Ela está também presente nos estudos sobre a relação entre o sentimento de vergonha e a ética. Finalmente, aponta-se que, no que se refere à educação moral, as virtudes podem representar um tema rico e sugestivo para a reflexão das crianças e adolescentes.
    • Apresentação

      Vidal,Diana Gonçalves (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000-01-01)
    • Les parcs d'attractions: jeu - divertissement - éducation

      Brougère,Gilles (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000-01-01)
      Les parcs d'attractions se sont, dans les années 90, développés en France comme dans l'ensemble du monde. Ils apparaissent comme des lieux de divertissement spécifiques dans la construction d'une illusion basée souvent sur des contenus culturels et/ou scientifiques sophistiqués. D'où la tentation d'y voir de nouveaux lieux d'éducation qui pourraient servir de modèles aux musées. Les expositions universelles sont des lieux qui mélangent volontiers des perspectives pédagogiques avec les procédés des parcs d'attractions. L'article essaie d'analyser ce qui caractérise ce type de loisir et l'architecture qui lui est liée, proposant de nouveaux objets qui ressemblent à des jouets surdimensionnés tant leur logique est semblable. Il importe en effet d'analyser la logique et le fonctionnement de ces nouveaux supports de loisir, pour comprendre leurs limites comme lieu d'éducation formelle. Celle-ci ne peut se développer que sur la base d'une analyse des parcs, d'une déconstruction de leurs effets.
    • A sementeira do porvir: higiene e infância no século XIX

      Gondra,José G. (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000-01-01)
      Este artigo apresenta uma análise e reflexão sobre a produção da idéia da infância no Brasil. Religião, ciência, progresso, indústria, comércio e civilização são alguns dos signos que têm participado da configuração e construção desse conceito no contexto brasileiro. Diante da complexidade da questão e da proliferação dos discursos sobre a infância, examina-se aqui um deles, bastante expressivo no século XIX, que incide na combinatória entre regenerar e civilizar. Esta fórmula, cuja legitimidade foi forjada no interior da ordem médica, determinou que o trabalho viesse a focalizar a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ), um dos lugares em que o tema da infância esteve presente regularmente ao longo do século XIX. Com a perspectiva de analisar as representações que a respeito da infância foram produzidas, trabalhou-se com parte da produção da FMRJ, sobretudo com as teses defendidas pelos alunos ao final do curso para a obtenção do título de doutor. Além disto, fez-se incursões precisas nas atas do I Congresso Brasileiro de Protecção á Infância e no conjunto das teses da I Conferência Nacional de Educação, na tentativa de indicar a permanência da infância na ordem do discurso médico, a ênfase na necessidade de sua higienização e certos deslocamentos das representações.
    • Notas em torno de retratos de criança

      Fernandes,Rogério (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000-01-01)
      Ao destacar o caráter polissémico da palavra criança, o artigo questiona tal polissemia para tempos pretéritos. Afirma que o vocábulo foi muitas vezes substituído por outros, com o intuito de designar com mais propriedade as fases de desenvolvimento infantil e problematiza com isto o estudo clássico de Philippe Ariès acerca do sentimento de infância na Idade Média. As análises partem de uma releitura da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes e rastrea no texto do cronista as palavras usadas para significar criança na acepção que hoje se dá ao termo. O propósito foi o de efetuar sondagem em uma das obras desse grande criador da língua portuguesa no período considerado. A essa fonte acrescentam-se algumas páginas da literatura que focaliza a criança em diferentes situações, cuja análise permitiu reconstruir as diversas representações de crianças, as quais, por sua vez, depõem sobre traços significativos da mentalidade pedagógica, em Portugal, quanto ao modo de conceber a infância. Conclui pela necessidade de compreender o termo infância em seu plural, pois assinala a variedade de perfis que essa categoria histórica, social e psicológica comporta; e alerta para o facto de que é preciso recordar que os retratos de crianças não provêm diretamente de crianças, mas foram produzidos por aqueles que já não eram meninos.
    • A "infância desamparada" no asilo agrícola de Santa Isabel: instrução rural e infantil (1880 - 1886)

      Schueler,Alessandra Frota Martinez de (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000-01-01)
      O presente trabalho trata da criação da Associação Protetora da Infância Desamparada, na Província do Rio de Janeiro, nos anos 1880, e as suas propostas de promover a instrução primária e a educação agrícola destinadas às chamadas crianças pobres do Império. Para tanto, levou-se em consideração os debates sobre a difusão da instrução elementar, o trabalho e a reatualização das políticas de controle social. Estas políticas estiveram presentes entre as preocupações e os objetivos dos sócios fundadores e políticos do Império e sinalizaram para um projeto de educação asilar, no qual a economia agrícola surgia como base da construção nacional. Para compreender essas questões, o artigo detém-se na análise do Asylo Agrícola de Santa Isabel, criado pela Associação e inaugurado em 1886. Busca-se caracterizar: sua arquitetura, os espaços construídos e áreas externas; as crianças para lá enviadas, sua naturalidade, sexo e condição social; e o ensino ministrado, os saberes difundidos, disciplina de caráter religioso, recursos a prêmios como emulação e trabalho no campo. Conclui-se com a afirmação de que a tentativa de estabelecer uma política de educação moral e religiosa, aliada à instrução elementar e ao ensino voltado ao trabalho rural, com o intuito de conservação de uma mão-de-obra dependente nas fazendas agrícolas, consistiu nos fundamentos e objetivos principais da Associação Protetora da Infância Desamparada.
    • Cultura da rua ou cultura da escola?

      van Zanten,Agnès (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000-01-01)
      Este artigo objetiva estudar a construção de atitudes e práticas desviantes de adolescentes de origem francesa ou imigrantes. Os dados da pesquisa foram obtidos em uma pesquisa de campo que incluiu observações e entrevistas realizadas ao longo de dois anos numa escola da periferia parisiense, A hipótese central é a de que os adolescentes dos bairros periféricos, ao ingressarem no ensino médio, já estão predispostos à cultura da escola ou à cultura da rua, cujas predisposições foram estruturadas na família, na comunidade ou nas escolas primárias. Assim, é nos colégios, em interação com processos especificamente escolares, que se desenvolvem condutas desviantes em alguns deles. Este texto evoca, primeiramente e de maneira geral, como os jovens percebem as interpelações e diferenças entre o colégio e o bairro, para em seguida voltar a atenção para três dimensões da sociabilidade adolescente que expressam as tensões entre a rua e a escola: as amizades juvenis, a sociabilidade em sala de aula e as relações interétnicas. A conclusão ressalta o peso que os processos de segregação têm para a perda da capacidade integrativa da escola, quer se tratem dos processos que ocorrrem nos estabelecimentos com um todo, quer sejam os que tomam lugar nas salas de aula.